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Saturday, 28 November 2009

SENHORES
Com o último exemplar da última edição da Folha Universal, aguçada como frecha, em riste na mão direita, o fiel investe – ele adora esse verbo – em minha direção e, sem saída, pois a calçada é estreita e o trânsito mortífero, reajo à altura. Engrenamos uma charla que reproduzo a seguir, um tanto enfeitada decerto, mas justificadamente pois estamos às portas do Natal.

- Jesus Cristo é o Senhor!
- Para com isso, amigo, pois sou apenas um cidadão latinoamericano sem dinheiro no banco nem parentes importantes.
- O senhor não me entendeu.
- Claro que sim, você afirma que eu sou Jesus Cristo.
- Jesus Cristo é o Senhor, trata-se de lema da igreja.
- Sua igreja enfrenta algum dilema?
- Senhor, não se faça de engraçado, eu falei dê lema.
- Se deseja que eu forneça um lema para sua fé, vai ter que desembolsar uns trocados.
- O senhor parece um homem inteligente.
- Evidentemente, afinal, vosso lume reconhece que sou Jesus Cristo, um dos humanos mais sábios dos que já foram crucificados em nossa redonda habitação.
- Muito bem, já que o senhor insiste nessa brincadeira, passe bem.
- Soa-me como se tivesse algum plano para mim?
- Minha idéia era convidá-lo a entrar e conhecer a casa do Senhor.
- Já conheço.
- Freqüentou nossa igreja antes?
- Refiro-me à minha residência, pois ninguém melhor do que eu a conhece desde os primeiros tijolos.
- O senhor construiu seu próprio lar?
- Claro que não.
- Mas acabou de afirmar isso.
- Pensei que estivesse se referindo ao outro Senhor.
- E se fosse, estaria cometendo um equívoco? Por acaso, a mão do Senhor não esteve presente quando o senhor edificou a obra?
- Você acaba de colocar uma pulga atrás da minha orelha.
- O senhor reconhece que o Senhor onipotente e onipresente...
- Espere um pouco, estamos falando do Pai ou do Filho?
- Pouco importa se evocamos o Pai, Filho ou Espírito Santo, a unidade é parte do mistério divino, creia, senhor.
- Assino embaixo, mas aquela pulga acendeu uma luz no meu cérebro.
- Um mísero inseto, capaz de transmitir a peste bubônica, pode nos indicar o plano do Senhor no caminho da salvação.
- Concordo, quase arrependido da minha atitude.
- Começa, portanto, a reconhecer a sagrada verdade?
- Maldita pulga. Na construção da casa, despedi um ajudante de pedreiro chamado Jesus, filho de carpinteiro, por excessos com a moça-branca. Será que?

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NOCAUTE2

Friday, 27 November 2009

NOTA FRIA

Deputado vai às compras no supermercado.

- Boa tarde, doutor, CPF na nota?
- Só se for fria.
- Eu não entendo disso, melhor o senhor falar com o gerente.
- Quem é o seu chefe?
- Aquele acolá, nas proximidades do balcão de frios.
- Terno preto e gravata vermelha?
- Ele mesmo.
- Deve torcer pelo Flamengo, gente fina, deixe comigo.

A excelência vai até onde está o gerente.

- Boa tarde, meu filho.
- Boa tarde, doutor, em que posso ajudar?
- Fiz uma compra de umas coisinhas aí, para o Natal e Ano Novo, e gostaria de receber um tratamento especial por parte do estabelecimento.
- Doutor, qual o valor em questão?

- Quinze mil reais.
- O senhor é realmente um cliente especial. Vou providenciar, imediatamente, nosso cartão ouro, que lhe garante 60 dias sem juros, saques em dinheiro no limite de 50% das compras mensais e cartões gratuitos para sua esposa e filhos, a partir dos 16 anos.
- E para a amante, nada?
- O senhor é quem decide
- Estou brincando. Aceito a oferta, mas o problema que preciso resolver no momento é de outra ordem.
- Estou ao seu dispor, doutor.
- Desejo uma nota fiscal fria no montante gasto.
- Perdão, doutor, mas uma casa com a reputação da nossa não trabalha com esse tipo de operação.
- Pois deveria, para não perder clientes como eu.
- Mas, doutor, caso o fizéssemos, seríamos certamente autuados pelas autoridades, com as consequências que o senhor deve imaginar.
- Meu caro, eu tenho como sanar essa questão sem maiores problemas.
- Como, doutor?
- Aqui está meu cartão com meu e-mail e telefone particulares. Basta me ligar e o livrarei de qualquer encrenca. O senhor ganhará não só um grande freguês, mas um defensor do seu negócio.
- Mas, excelência, eu não fazia idéia de que o senhor era deputado federal. Vamos até o caixa, por gentileza.

Os dois se aproximam do caixa.

- Dona Aurora, a senhora atendeu este senhor?
- Eu mesma, Seu Ariovaldo, e pedi para ele falar com o senhor.
- Pois faça o seguinte: cancele a compra e fique à vontade para mandar, depois de mim, a excelência à puta que o pariu.
- Sim senhor, Seu Ariovaldo. Só isso?
- Por hoje, só.

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